sábado, 5 de abril de 2008

A CHAMADA DA MORTE

[Postado por A.Tapadinhas]




Chamada da Morte
Acrílico sobre cartolina preta 30x22cm

A CHAMADA DA MORTE

Pela primeira vez, mais de um ano decorrido sobre os acontecimentos, dos quais fui actor involuntário, vou relatar o que se passou, com a certeza de que apenas servirá para aumentar dúvidas arrepiantes e, porque não dizê-lo, elevar o meu medo, num crescendo aflitivo, inexplicável, assustador e sinistro.
Não pretendo desvendar nenhum mistério, nem formular hipóteses de explicação. Pretendo apenas (e é tanto!), exorcizar fantasmas.
Tudo começou nessa noite de Inverno, com vento de agulhas e frio de gelar fogos. Entrei no café e sentei-me, tremelicando o pedido de uma bebida, enquanto amaldiçoava o tempo.
Na mesa ao lado, um homem que eu via pela primeira vez, concordou comigo:
- “ Tem razão! É uma porcaria de tempo! Mas repare que assim tem algo de concreto para odiar. Eu, infelizmente, nem isso tenho! É tão bom odiar: o tempo, a vida, as pessoas…”
Era tão estranha a sua conversa, na normalidade das suas roupas, tão singular a sua maneira de falar, que pensei estar a ouvir um louco. Sem uma pausa, continuou, em jeito de confissão:
- “ Nunca disse a ninguém mas vou confiar-lhe, a si, porque é um desconhecido, o meu segredo: eu vivo apavorado! Oiça bem: apavorado! “ - e puxava-me as bandas do casaco, as mãos como cabos eléctricos a ligar-me à veemência do seu grito.
(E tinha razão: eu senti a corrente a passar!)
- “ Sou orgulhoso demais para contar a um amigo, o medo que me dilacera a alma, o pavor da Morte. Sou escritor. Nos meus livros, conto as minhas impressões de viagens a terras distantes, às mais estranhas, porque quero ser diferente, original. A Vida não tem de ser igual para todos. Igual só o Nascimento e a Morte - o Princípio e o Fim. O que se passa durante, depende de cada um de nós. Uma certeza que se desfez como bola de sabão, numa tempestade de granizo.”
Mandei vir mais duas bebidas: já não podia fugir.
- “Há quinze dias, o meu melhor Amigo e Mestre (palavras quase sempre sinónimas), morreu inesperadamente. Uma pequena Eternidade para mim, toda a Eternidade para ele. Será que podemos fraccionar a Eternidade? Como se medem Eternidades? Einstein estava enganado e enganou-nos a todos: a luz, afinal, era mais veloz no Princípio. Será que está a perder velocidade desde então? Sendo assim, todos nós ficaremos agarrados a um imenso buraco negro, no fim do Mundo.”
Engoli o resto da bebida. Fazia-me falta!
- “Temi endoidecer! Quase uma semana depois da morte do meu amigo, a sua viúva telefonou-me com gritos silenciosos de terror estridente, na sua voz. Queria encontrar-se comigo. Arrumei a minha dor, subitamente desperta, numa prateleira e saí a correr. Afinal não era nada urgente ou inadiável. Tinha a ver com a Eternidade: um assunto que pode esperar!
Para encurtar razões, depois da sua morte, nunca mais conseguiram encontrar o seu telemóvel. Mas ele existe - não morreu com o dono, como os servos dos faraós. A Companhia continuou a debitar chamadas para pessoas com as quais não temos a possibilidade (não?) de falar: Fernando Pessoa, Alexandre Herculano, Mário de Sá-Carneiro, José Cardoso Pires… Sabe o que sugeri?”
Abanei a cabeça.
- “Abram a sepultura, exumem o cadáver, procurem e destruam o aparelho, antes que as larvas e os vermes comam tudo, como os vampiros da canção.”
Um calafrio percorreu-me o corpo, mas mesmo assim consegui sorrir, enquanto dizia:
-É um mistério, sem dúvida mas não é caso para ficar aterrorizado.
O homem olhou para mim, com arrepios de gelo azul nos olhos:
- Esse telemóvel nos últimos dias tem chamado o meu número. Quando pergunto quem fala, só oiço ruídos de infinito.
Nesse preciso momento, ouvi com todos os meus sentidos a vibrar, um toque de campainha.
Um esgar de pavor, contraiu-lhe o rosto.
Atónito, petrificado, vejo-o a sair, correndo... correndo…
Levantei-me a custo. Consegui vê-lo, ainda, à esquina da rua, com o telemóvel na mão.
Perguntei ao dono do café se conhecia o senhor que acabara de sair.
- É um escritor e poeta muito conceituado, nosso cliente habitual. Sempre calado, calmo, a observar as pessoas… É estranho o seu comportamento.
No dia seguinte, na primeira página do jornal, lá vinha a notícia que eu não queria:
“ Morreu o escritor…”
Fiquei a olhar para a fotografia. Era o meu interlocutor de ontem...
Acreditava no que via – a notícia, sem acreditar, ainda, no que tinha ouvido – a chamada da Morte.

20 comentários:

Walmir Lima disse...

Tapadinhas, meu caro...
Não me digas que ele morreu atropelado ao atravessar a rua sem prestar a atenção porque estava a falar no telemóvel...

Flavio Ferrari disse...

Já desliguei meu celular. A conta estava pela hora da morte mesmo.
E ... Tapadinhas, não se assuste ... a moça do vídeo é a Bethania.

Walmir Lima disse...

Cacilda!
Esse vídeo assusta mais que a 'Madame da Foice'.
É mais assustador que o rascunho do mapa do Inferno.

Walmir Lima disse...

(...pra não dizer outra coisa...)

Walmir Lima disse...

O homem 'caprichou' nas imagens...

Anne M. Moor disse...

Essa chamada da morte é realmente assustador... 5 minutos antes do carro que matou meu sobrinho bater no carro dele, ele ligou pra noiva e disse: Não importa o que acontecer, eu te amo. O dia anterior havia também enviado um e-mail pra ela com poemas do Pessoa misturado com uma fala que não se entendia...
Essas são as coisas da vida que jamais entenderemos...
A má impressão acaba passando...
Beijos arrepiantes :-)

A.Tapadinhas disse...

Walmir: As coisas nestas histórias, e às vezes na vida, nunca são assim tão simples! Vê, se concordas:
"Saiu a correr, sem notar a chuva miudinha que caía, tornando o trânsito um inferno, nunca sonhado por Dante. Junto à passadeira, levou o dedo ao botão para parar o tráfego. Não reparou nos fios de cobre que lançavam reflexos agourentos a vibrar por efeito da água da chuva. O seu dedo dirigiu-se lentamente para a condenação, como se fosse atraido pela força de um íman gigantesco..." :)
Abraço.
António

A.Tapadinhas disse...

Flavio: O poema chama-se "Cântico Negro", de José Régio. O título tem a ver com o tema...
Abraço.
António

A.Tapadinhas disse...

Walmir: Eu sabia! Disse para comigo: se a história não os convencer, o boneco não os impressionar, pelo menos, a Bethania não vai falhar...
Abraço.
António

A.Tapadinhas disse...

Anne: Há pessoas que estão mais atentas que outras àquilo que as cercam. Depois de começar a pintar vi tantas coisas novas, apercebi-me de tantos pormenores que me escapavam! Muitas vezes, é preciso que a adversidade nos atinja com toda a sua força, para abrirmos os olhos e a mente, na busca de novos horizontes! Comigo aconteceu...
Beijo caloroso (anti-arrepio!:)
António

Udi disse...

"...que eu vivo nesta ansiedade
que todos os ais são meus
foi por vontade de Deus..."

Maravilhoso! Postagens multimídia ampliam as possibilidades.

disse...

O que salta na estória aos meus olhos é a qualidade do texto.
Literário, sem dúvida.
E dos bons.
Parabéns.
Beijo.

Walmir Lima disse...

Bem destacado, Lú.
A gente até brinca um pouco mas não deve deixar de destacar a qualidade dos textos do António, que nos encantam tanto quanto sua pintura.

A.Tapadinhas disse...

Udi: O perigo é que se pode perder aquilo que é essencial, quando se utilizam muitos meios; às vezes, a simplicidade paga dividendos.
Beijo
António

A.Tapadinhas disse...

Lú: Se receber uma chamada, atenda por favor: sou eu a agradecer as suas palavras... :)
Beijo.
António

A.Tapadinhas disse...

Walmir: Cuidado ao carregar no botão, principalmente se estiver molhado... :)
Abraço eléctrico.
António

Udi disse...

António: meu olhar (ou minha audição?) captou como essência o fado (em seu sentido mais ampliado)... que até pode ter lá seu lado bem-humorado (bem? bom?)
;)

É! disse...

UAU! (:-o)
Pois vou contar algo que uma amiga, enfermeira da ambulância de resgate aqui em São Paulo, sempre me diz: "acho uma sacanagem irmos lá, recolher o cadáver, e seu relógio continuar funcionando... O relógio deveria parar quando a pessoa morre! Isso é um desrespeito! Não pior quando temos que atender ao telefone e explicar que "a pessoa não se encontra no momento..."
TÉTRICO!

A.Tapadinhas disse...

Udi: Também há fado e fadistas que relatam acontecimentos com sentido de humor ou brejeiro...
´-)
António

A.Tapadinhas disse...

é: Essa frase dá mesmo para o começo de um conto:
Quando a enfermeira contou que "a pessoa não se encontra no momento", por lhe faltar coragem para anunciar a sua morte, ouviu-se uma voz vinda de nenhum sítio e de todos ao mesmo tempo, que disse: "Eu estou e quero pegar-te..."
O conto do relógio que pára quando o dono morre, fica para outro dia... :)
Beijo.
António