sexta-feira, 11 de abril de 2008

TENHO NADA PARA FAZER

[Postado por A.Tapadinhas]

TENHO NADA PARA FAZER

Não ter nada para fazer é algo que só recentemente começou a ser reconhecido como um dos pilares do desenvolvimento do País.
Estou a pensar nos milhões de contos pagos para os barcos de pesca serem reduzidos a achas para uma fogueira que ainda não atingiu o máximo de calor, embora as labaredas comecem a fazer estragos; nos milhares de agricultores pagos para não cultivar; nos milhares de operários mandados para casa pré conformados, reformados, numa espécie de experiência pré nupcial, para os restos da vida.





...como se prova afinal havia muito para fazer: a relva do meu jardim precisava ser cortada, para não falar nos ramos das palmeiras...










E no que todos ganharíamos se a RTP fechasse, e se os aviões não levantassem voo, e se os comboios tomassem os carris nos dentes e galopassem desenfreadamente para lado nenhum.
E naqueles que não se dão ao trabalho de sair de casa para receber o rendimento máximo, desde que garantam a mínima produtividade.
No passado fim-de-semana, devido a uma série de circunstâncias tão difíceis de conjugar como o verbo haver, fiquei sozinho em casa, pronto para colaborar na campanha.
Acordei com o chilrear dos pardais que soaram aos meus ouvidos, como trinados de rouxinol na época de acasalamento.
Fui comprar o semanário e tomei o pequeno-almoço já apressado, com o desejo de começar, quanto antes, o curto período de férias, no lar.
Quando dei as duas voltas à chave, no portão do quintal, senti o mesmo gozo sádico do carcereiro ao encerrar um assassino na sua cela da morte.
Depois de entrar em casa fiquei com dois pontos vulneráveis no meu forte: o telefone e o telemóvel esse Big Brother orelhudo que segue todos os portugueses.







...na falta de fotografia fiz um desenho do atentado...








A campainha da porta não funciona: foi assassinada com pá e enxada pelo jardineiro que tem o dom de transformar em profundas escavações arqueológicas o que devia ser um preparar suave da terra para semear flores, partindo, rasgando, destruindo, cortando fios de electricidade, canos de água, de gás, ou esgotos, com a tranquilidade furiosa de quem cumpre o seu dever. Os fios do telefone salvaram-se desta chacina porque entram em casa pelo ar. Talvez eu lhe peça um dia para aparar os ramos das árvores…
Ficaram, assim, criadas as condições para me defender da perseguição implacável que um Deus misterioso desenvolve para me coarctar a liberdade de não fazer nada, ou melhor, só aquilo que quero: pintar - a forma de trabalho que mais se parece com a preguiça, porque deixa livre o pensamento, essa defesa contra as perseguições insidiosas de todos os seres malignos.
Não fazer nada é seguir o exemplo de Deus: trabalhar muito mas ao sétimo dia descansar, ir para férias.
E julgo que ainda não regressou, o bom malandro…

24 comentários:

Suzana disse...

Não fazer nada é seguir o exemplo de Deus:

"Que não assina suas obras por não ser necessário."

bjs

Boas férias

Anne M. Moor disse...

Não aprendi a não fazer nada... ainda...
Beijos seguidamente em curto circuito :-)

Ernesto Dias Jr. disse...

Ócio criativo. Ainda bem.
E concordo com você: a melhor forma de não fazer nada é se matando de fazer o que a gente gosta. Um dia ainda vou me matar de escrever.
Quanto ao não fazer nada em Portugal, bem... no Brasil tem gente que consegue não fazer nada só por causa de 70 réis por mês que o Lula dá.

Walmir Lima disse...

Que Deus abençoe o teu ócio.
Cá, trabalhamos feito burros... Fazer o que?
Quanto ao desenho, bela obra! O Monteiro Lobato, se fosse vivo, te contrataria para ilustrar o almanaque do Biotônico Fontoura.
Um abraço suado.

disse...

Não sei o que tá melhor: o desenho ou o texto.
O comentário do Ernesto é tao pertinente, que também entra no páreo.
Como é bom morrer de fazer o que se gosta.
Beijo.

A.Tapadinhas disse...

Algumas vezes é: fico com dúvidas se Ele tem culpa de malfeitorias que alguns políticos fazem...
Beijo.
António

A.Tapadinhas disse...

Persistência é a palavra-chave. Alguns levam toda a vida e não aprendem...
Beijo descansado.
António

A.Tapadinhas disse...

Ernesto: Cuidado! O cavalo do espanhol, depois de aprender a não comer, morreu... à fome!
Abraço.
António

A.Tapadinhas disse...

Walmir: O jardineiro tomou a poção em pequenino.
Abraço (pus desodorizante no sovaco).
António

A.Tapadinhas disse...

Lú: Antes de morrer é muito bom!!!
Depois, não sei, não, como vou contar pra você! :)
Beijo.
António

Jorge Lemos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jorge Lemos disse...

Roubarei a imagem do ócio, teu desenho ao revolver a terra, e direi: - este, enquanto descansa, carrega pedras. Todos os poetas são assim!

Jorge Lemos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Walmir Lima disse...

Amigo António,
Hoje é Domingo, dia do ócio, e, finalmente, conseguí dormir até mais tarde.
Aproveitei para reler tua postagem, agora, com calma, para poder sorver cada palavra e ficar mais e mais admirado pelo quanto me agrada teu estilo de escrever.
Se já gostava tua pintura, sou também fã incondicional dos teus escritos.
Um abraço,
Walmir

A.Tapadinhas disse...

Jorge Lemos: Ócio é uma linda palavra com más conotações...
Entendo como ócio, fazer o que nos agrada... Já cavei no meu jardim por puro prazer... agora, não posso, e pago uma nota preta para que alguém o faça!
Abraço.
António

A.Tapadinhas disse...

Walmir: É natural que a nossa afinidade de Sagitarianos, nos aproxime em diversos aspectos: pintar e escrever parece-me que são duas que se tornam mais evidentes, atendendo às circunstâncias... Te agradeço do fundo do coração!
Abraço.
António

Raquel Neves de Mello disse...

Desde que começaram minhas férias forçadas, descobri o quanto é bom fazer nada. Melhor, o quanto é bom fazer só o que se quer, inclusive fazer nada. Mas, ha alguns dias, comecei a desgostar disso. É que a gerente me avisou que minha conta já está entrando no vermelho. Alguém sabe de um emprego?

Angela disse...

Quanto talento junto!
Adorei o texto!
Adorei o desenho!
Isso tudo é que é "nada pra fazer"?
Então continua assim: tendo nada pra fazer.
Os admiradores agradecem.

A.Tapadinhas disse...

Raquel: Forçar alguém a não fazer nada é uma violência inqualificável. Tão grande como obrigar alguém a amar o Ministro do Trabalho... Portugal, agora, tem a maior taxa de desemprego da Comunidade Europeia... mas eu não dou para essa estatística...
Beijo de solidariedade.
António

A.Tapadinhas disse...

Angela: Quando era jovem sonhava ser porteiro. Sabes porquê? Tinha todo o tempo para estudar xadrez, a minha grande paixão... Só com muito trabalho se consegue ganhar o prazer de não fazer nada.
Beijo.
António

Érica disse...

António, estava eu a procurar uma frase que li sobre "arte" esses dias para colocar aqui, porém encontrei esta, que é bem a cara dos meninos - você, incluído -daqui do Prozac... Não resisitirei, portanto:
"Os pintores só devem meditar com os pincéis na mão."
Honoré de Balzac
hihihihi...

Érica disse...

(versão "Ludóvica" de Érica falando...)

Érica disse...

"Não, a pintura não é feita para decorar os apartamentos. É um instrumento de guerra ofensiva e defensiva contra o inimigo."

Pablo Picasso

A.Tapadinhas disse...

Érica: Não sou pintor naif (meu teclado não tem trema), mas eu devo ser um pouco (?) ingénuo: não entendo a gargalhadinha no fim... No entanto, eu alerto para o perigo da confusão entre granada (guerra) ofensiva e defensiva, porque ao contrário do que parece a granada defensiva, ataca e é muito mais mortífera: tem aquelas esquírolas de aço que matam todos em redor...
A outra é só barulho... e cão que ladra não morde.